14.12.09

Como se sangra

"Essas feridas da vida, amarga vida" (Veja Margarida, de Vital Faria)


meu corpo tem todos os nós.
espaços, cordões e espinhos.

essa fome que não é fome.
essa sede que não é sede.
esse riso que não é nem perdão.

como viver e morrer
se é ainda primavera?

isso que é dor e arde
e só é dia quando se morre.
só é noite quando se esquece
como um abrir e fechar

se partir e ainda assim
sorrir ou chorar?

silêncio silêncio silêncio
essa dor entranhada
em todos os poros

como se pudesse ser
uma dor assim tão funda
numa superfície tão rasa...

a noite dentro dos olhos.
o vazio dentro do que é noite
e escuro.

e o escuro é essa pele toda.
e a pele é só pele.
em flor. em rosa, em rasgo.

como se morre dentro da noite.

como se morre?

feito pétala a sangrar.

3.12.09

de quando a hora se abre e o verso se perde

vou rasgar essa palavra presa. antes que adormeço. antes que me perco o que era. ou nem. antes que eu seja. o que ainda. vou rasgar esse silêncio que ponteia meu peito. essa dor que adormece meus olhos. esse frio que assalta espinhos pele e gestos. vou rasgar-te. aos poucos. sem que sejas, sem que sintas. esperas que eu minta então? esperas que não? apenas. digo-te. o que vai em mim e não pede. o que não tem medida nem cor. tamanho ou definição que caiba. o que eu não sei, mas sinto. não tem nome e se faz em mim como se nasce sonho ou flor. como se pinta o sono de leve e adormeço. adormeço sempre baixinho.não quero que ouças meus passos! na escada, na estrada vazia quando ainda é noite fria. quando o frio fica insuportável aqui dentro e grito. não ouses ouvir meus gritos! não olhes pros meus olhos tristes então. que essa dor vem me banhar feito onda. vem e passa. me transpassa, ultrapassa meus fios, atravessa meus nós. meus pés diante da água. meus olhos distantes, espelhos. balanço, sereno, o mar. o mar, o mar. macio das águas e de água me faço. caminhos versos e nódoas. e que esses rasgos sejam só um pequeno ruído no quarto. e não atrapalhem seu sono. gritarei pequeno que agora não sei mais. o que era caminho. o que era sorte, remendo e verso. as ondas vêm e levam. as certezas todas. ficam esses dias nublados. um grito do que não se sabe é um grito de dor? perdi os nomes, as letras. como se tivesse perdido a visão ou a leitura. nem linhas entrelinhas não há nada que há. agora. esses riscos todo na parede. embaralhadas as formas os ritmos os compassos. como de repente me perdi novamente no mar. ventos. os ventos todos. a distorcer mapas e bússolas. a tecer fios invisíveis sobre as águas. a tingir memórias em meus olhos, dias nos meus dias. como se pudéssemos andar sobre á agua. e o bater de asas fosse apenas soluço. imprecisão. ando a fazer cortes nesse silêncio todo. para que eu possa enfim fechar os olhos e escorrer. me fazer noite com a noite. e quem sabe, assim, durmas tranquilo também.






"Perdi-me muitas vezes pelo mar, o ouvido cheio de flores recém cortadas, a língua cheia de amor e de agonia.
Muitas vezes perdi-me pelo mar, como me perco no coração de alguns meninos.
Não há noite em que, ao dar um beijo, não sinta o sorriso das pessoas sem rosto, nem há ninguém que, ao tocar um recém-nascido, se esqueça das imóveis caveiras de cavalo.
Porque as rosas buscam na frente uma dura paisagem de osso e as mãos do homem não têm mais sentido senão imitar as raízes sob a terra.
Como me perco no coração de alguns meninos, perdi-me muitas vezes pelo mar.
Ignorante da água vou buscando uma morte de luz que me consuma.'

Federico Garcia Lorca (Da fulga)

18.11.09

Retratos...

"E quando o dia não passar de um retrato
Colorindo de saudade o meu quarto
Só aí vou ter certeza de fato
Que eu fui feliz"




teu nome eu invento. em meio ao silêncio das horas. aos cânticos do dia. aos rumores da rua, ao caos e à rotina do tempo. de ventos e luas preencho teu nome. recrio cor pra teu sorriso. calço minutos com palavras mansas, revisto as flores das calçadas, revivo cheiros e sentidos. e aqui fico tecendo noites com saudade.
- então venha, deitar sua face sobre essa noite minha. encostar tua mão sobre o silêncio que escorre em meu peito. e dessa flor que trago nos olhos, fazer retratos de cores e canções.



"O que vai ficar na fotografia
São os laços invisíveis que havia"
(Fotografia, Leoni)

12.11.09

como uma nota solta a apertar o peito... um tom desafinado a revirar a poesia. o mundo avesso e torto a ensaiar meu dia. seja um afago, um afeto. o que espera, o que se crê. o que se olha e ninguêm vê. como um amargo ou ácido domingo. este instante pálido, pra se correr todos os riscos. a canção triste... ah, essa canção... o olhar na janela, a noite escura... as horas magras de presença. o dia que se estende, que se funde, o dia dentro do dia. o que se corta, o que se abre, o que se aperta e é só silêncio ou música baixinha. o silêncio, o silêncio, o silêncio... e esse nó. e esse aperto. e essa nota solta dentro do peito. o que será, o que se é, o que se faz com canção que tem tons de saudade...

30.10.09

cartografia

de tua pele em mim um desenho.

matéria viva tecida de sonhos.

a se abrir.

feito pétala e água.

tantos e tão claros sinais,

como o dia amanhecendo em teus olhos.

...

em cada jardim a rosa se abre para receber a cor.

6.10.09

do amor e outros encantos

estranhos e belos caminhos estes... a se perderem e assim se encontrarem. como uma verdade simples e pequena. o intenso da flor e a leveza do dia em que se é primavera. como a luz dos teus olhos pode ser em mim poesia.
retratos dos encantos dessas pequenas-grandes coisas que só se sabe bem com o coração. ternos exercícios de aprender a ser. de se permitir. mergulhar. nos infinitos em que nos fazemos.
estranhos e belos caminhos estes... a nos ensinar o nome que a rosa tem.



"porque eu sei que é amor..."(titãs)

24.9.09

... esperas...

fico aqui, a preencher o tempo com silêncios. a tecer imagens e memórias. a pintar os dias com cores tuas. cores de renascer. em sonhos, levezas, flores. nessas horas fora do tempo, na mágica possível onde nasce a canção do vento, onde a primavera se faz, onde o sol dorme em vermelhos. e fico descortinando novos sentires, formas bonitas de aprender a ser. de se fazer cor. nuances, tons, alegres melodias a bailar no silêncio do quarto. esperas. esperas tranquilas pelos dias que vêm. sem pressa. sem atropelos serão dias bonitos. foqueiras e serestas. lendas e versos e pétalas e asas. como só a beleza da cor pode ser. leve. e intensa. e funda. encontro de peles e olhos. reencontros. de tudo o que um dia. e em tantas vidas. se fez doce e bonito. se fez forte. se fez chama. que o sol nasça. e que a manhã encontre luz nesses sorrisos simples.